Diário Digital: O senhor acompanha o fenômeno do Twitter? Acredita que a concisão de se expressar em 140 caracteres tem algum valor? Já pensou em abrir uma conta no site?
José Saramago: Nem sequer é para mim uma tentação de neófito. Os tais 140 caracteres reflectem algo que já conhecíamos: a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido.



9 comments
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07/28/2009 às 11:06 pm
Julio Garcia
É uma perspectiva válida a do Saramago. Por profissão não é conciso, pelo contrário, não o pode ser. Mas não estamos sempre a escrever livros para contar histórias. Também contamos histórias de outros modos. A comunicação é o processo humano mais flexível e plástico que existe. Assim direi que de um certo ponto de vista o Saramago tem razão. Mas encaremos a diversidade como um ponto fundamental e um pilar do próprio ser humano. Os 140 servem para comunicar de determinada forma. O 1.400.000 de um livro para comunicar de outra. Ambas são válidas e adequadas às respectivas necessidades.
07/29/2009 às 10:47 am
StingBite
O comentário de Júlio Garcia é excelente e reflecte o que penso.
Presumo que Saramago também se refira ao facto de no Twitter berrarem todos ao mesmo tempo, mantendo a estrutura rígida dos 140 caracteres, tornando cada novo tweet, de calor do momento, em apenas mais um grunhido.
07/29/2009 às 10:53 am
Eurico Conde - Lisbon
São as palavras possíveis de um Nobel do Sec. XX, que não mostra vontade de se abrir ao Sec. XXI… nem todos temos o condão de ser SARAmaguinhos!!! mas quem sou eu para julgar e comentar um NOBEL?!? uuuuppppsssss… será que já cheguei aos 140 caracteres? ou já estarei a grunhir?!?!?!?
07/29/2009 às 11:00 am
Lénia Rufino
Duas perspectivas: o monossílabo ou o poder de síntese. Sim, diz-se muito disparate no Twitter, muita gente conta detalhes privados e desinteressantes, usa-se e abusa-se da comédia. Mas 140 caracteres podem ser um fabuloso exercício de síntese. Há haikus com bem menos do que 140 caracteres e nem por isso são monossílabos nem retalhos sem valor, bem pelo contrário. Importa dar às coisas o valor que elas têm e não rejeitar veículos de comunicação num mundo que ser quer cada vez mais ligado.
07/29/2009 às 12:32 pm
filinto
Este é o mesmo Saramago que não gostava de blogues, não é?
Vale a pena pensar no que ele diz, mas é só isso.
08/01/2009 às 7:32 pm
Eduardo Andrade
O problema não é de Saramago mas sim de quem o interpelou com tal pergunta. Perguntar algo a um nobel da literatura é esperar nada mais do que a resposta que recebeu. Provavelmente, Saramago nem conhece o twitter… Para mim o twitter não serve como base para dissertação ou devaneios de escrita mas apenas para deixar recados e apontamentos!!!
08/30/2009 às 3:30 am
Manuel Rebelo Castro
Abstraiam-se, fujam um bocado ao óbvio… em termos literais, o Saramago não fez nenhum juízo de valor. Estimou e prevê um futuro óbvio da linguagem. E é óbvio. As abreviaturas e estrangeirismos generalizados por uma ferramenta global que apela ao consiso. A questão é bem mais complexa, meus caros, do que transmitir muito mais prática e de forma concisa, mais e mais informação – o que é altamente benéfico, ou pelo menos o parece -, vejo o subentendido juízo de valor negativo uma vez relacionado à perda do património linguístico, da falta de personalidade e na própria mensagem que a idiossincrasia de uma escrita personalizada – como a dele – tanto acresce a uma obra. E uma obra, não é só um livro de histórias. A meu ver, um artista como Saramago deverá considerar cada manifestação oral ou escrita, como uma obra. Como um objecto que influenciará outros, positiva ou negativamente, ou que pelo menos influenciará críticas, como as que estão aqui – e qual será o outro papel de uma obra? E a partilha exacerbada de informação anula a nossa capacidade de procurar por ela, de andar atrás de uma citação num livro durante uma noite inteira para a registar num diário, anula a nossa personalidade, a fome voraz por conteúdos múltiplos que supostamente nos enriquece uma vez saciada não resulta na nossa imortalidade – a nossa condição humana definirá que talvez devêssemos aproveitar cada frase, tenha a retórica que tiver, mas de preferência que seja própria, de forma a interiorizar e poder fazer dela algo novo, criar, produzir, contribuir – esculpir o nosso próprio ideal e modo de vida autónomo. O comunismo que Saramago defende, a meu ver, apoia-se no termo igualdade no sentido de dar oportunidade a cada um de ser quem deseja ser – igualar-mo-nos gratuitamente, clonar-mo-nos facilitará o nosso controlo, por mais ricos em informações que sejamos e então, de pouco valerá tanto conhecimento. Há que gerir recursos. Acho que Saramago é actual q.b. e até mais do que se esperaria. Tem um blogue ou dois, um canal no you tube, e não sei mais o quê e o que se põe em causa pouco tem que ver com o ser ou não um velhote do contra. Ou não será ele o maior génio português vivo, para o bem e para o mal, sem contradições que – eu, falo sempre “eu” – se lhe aponte.
E tendo em conta o tamanho do meu comentário, poderá também subentender-se daqui o juízo de valor negativo ao twitter. Mas lá está: o que fiz não foi deitar abaixo o Twitter, tal como não o fez literalmente o Saramago; foi tentar travar a tendência de considerar o Saramago desactualizado tecnologicamente com fundamento numa crítica – que para mim é tão óbvia que é um juízo de facto – ao Twitter.
10/27/2009 às 8:13 am
sergio
Saramago à parte, mas os fatos históricos demonstram que iniciamos com grunhidos, depois criamos o vocábulo “realitas” para denotar o existente ao redor.
Evoluímos e construímos riquezas linguísticas para descrever a “realitas” à ponto de, tão somente pelos fonemas, transmitirmos para a mente do ouvinte as complexas e coloridas cenas, enredos, eventos, sentimentos, e todo tipo de grandeza, concreta ou abstrata.
Não há dúvida que o mundo www tem empobrecimento este poder de comunicação, resultando nas “bagaça”, nos “ae”.
“Sei naum intendi”.
10/31/2009 às 1:38 am
Ana
Concordo com Saramago, mas nunca imaginei os 140 caracteres do twitter como uma forma finita de expressão.Escrevo varias vezes e de tudo pode surgir, no minimo, um conto…assim, vejo os 140 como um sinal de pontuação, jamais como um entrave a minha expressao.A propósito, sua devota de Saramago!!!